sábado, 18 de fevereiro de 2012

A PRIMEIRA RESENHA





Um livro porreta


Marcelo Torres*


Já pensou reunir, num só universo, a noivinha do Cabula, a putinha da Vitória, a Bonnie dos Barris, a guerreira da Lapinha, a santinha da Ribeira e a piriguete de Ondina? Pois neste mês de fevereiro, mês de carnaval, chegou às livrarias um livro porreta, com um título que já é um convite à leitura - As baianas. Gustavo Rios, Carlos Barbosa, Mayrant Gallo, Elieser Cesar, Tom Correia e Lima Trindade fizeram uma obra  declaradamente inspirada em As cariocas, de Sérgio Porto, e pretendem mostrar outras baianas, “longe do estereótipo cristalizado pela música popular e pelos clichês das novelas de televisão”. 

Engraçado é que, no dia em que surgiu a ideia, numa mesa do bar, eram outros os títulos - “A federal da Federação”, “A ribeirinha da Ribeira”, “A encabulada do Cabula”, “A descaminhada do Caminho das Árvores”, “A marinheira dos Mares” etc. E logo de primeira este leitor, nascido no interior, vê que as baianas são de Salvador, ainda que Marina, a Bonnie dos Barris, seja uma maluquinha carioca que foi passar as férias de verão na casa dos tios na Bahia; e que Maria Quitéria, a guerreira da Lapinha, tenha nascido no bairro de Quitéria, em Feira de Santana. 

Os contos são soteropolitanos, acontecem em Salvador. “Não há nenhum [conto] com garota do interior”, também observou Carlos Barbosa, um dos autores, ele que nasceu no município de Oliveira dos Brejinhos, viveu em Ibotirama e hoje mora em Salvador. Nada, porém, que tire a riqueza desse mosaico de perfis femininos - esse tabuleiro de almas soteropolitanas - nem a beleza encantadora das histórias; histórias que, de tão vivas, sedutoras e vibrantes, parecem reais. Afinal, em Salvador, quem não conhece uma loira como a piriguete de Ondina, que move mundos e fundos para obter uma pulseirinha que dá acesso ao camarote de Daniela Mercury? E quem não conhece uma figura como Quitéria, uma negra gorda e falante, nascida no interior, empregada doméstica, vítima de abusos, exploração e preconceito? Leia mais.


Em alguns contos, para dar um tempero bem baiano, ainda que em meras lembranças das personagens narradoras, aparecem figuras históricas, nomes de personalidades de colunas sociais e figurinhas carimbadas, como políticos, músicos, jogador de futebol, religiosos e promotores de evento. “Isso é que é viagem [à Bahia]”, diz Xico Sá nas orelhas, ele que já foi muitas vezes à Boa Terra – “para fins profissionais ou fins dorivais de pura vadiagem”, explica. “Nenhuma visita, porém, foi tão afetiva e esclarecedora como a que fiz ao ler As baianas”, escreve ele. “Um livro singular sobre baianas”, escreveu, nos posfácio, o escritor Aramis Ribeiro Costa, presidente da Academia de Letras da Bahia. “Seis ‘baianas’ que transcendem a baianidade, mas se incorporam em definitivo no vasto e rico território da criação ficcional da Bahia”.

Dois pontos comuns entre os seis contos são a descrição da paisagem física de Salvador, a partir dos bairros que emprestam o nome aos títulos, e a forte presença do sexo, que aparece em atos, palavras e pensamentos. A história que, talvez, mais pareça retratar particularidades baianas, com um relato de viagem pelo tempo (história da Bahia) e pelo espaço (percorrendo ruas, becos, ladeiras), numa linguagem repleta de palavras e expressões do chamado “baianês”, é o conto A guerreira da Lapinha, de Elieser Cesar. “Optei por uma estrutura andarilha”, diz ele no blog do livro. “Pequenos episódios de uma vida pequena em trechos estratégicos do cortejo [do 2 de Julho]. Queria minha cidade presente, por mais descuidada que esteja; minha gente visível, por mais manipulada que seja”, conclui. Um aspecto interessante, sobre o qual este leitor se deteve, é o “baianês”. Numa obra escrita por baianos, moradores de Salvador, seria quase impossível não aparecer o jeitinho baiano de dizer as coisas - a começar pelo título de um dos contos – A piriguete de Ondina.

Mayrant Gallo autografa um dos 110 exemplares vendidos na noite de lançamento.
Foto: Gal Meirelles

Piriguete (com “i” no início, do jeito que se fala) é uma variedade rebaixada de um termo que já é depreciativo na origem: “periguete” surgiu da junção de perigo + ete = mulher a perigo, perigosa, ‘vagaba’, fogosa, vadia, danada. Para vulgarizar ainda mais, diz-se “piriguete”. O termo, que este ano passou a figurar no Aurélio, tem variantes como periguete, perigas e peri ou piri. À página 26, por exemplo, no conto A Bonnie dos Barris, Beto fala para Léo: “E igual a ela [Marina] cê pode encontrar uma porção de ‘perigas’. A escola tá cheia”. Mas é na fala de Quitéria, A guerreira da Lapinha, que são encontradas umas cinco dezenas de palavras e expressões do ‘baianês’. Exemplos: as expressões “retado” (que o restante do Brasil diz ser “arretado”), “retada”, “se retar” e “me retei” figuram com freqüência. Quando, à página 32, ela se refere à heroína Maria Quitéria (sua xará), como uma ‘mulher retada’, quer qualificá-la como mulher forte, grandiosa, competente. “Essa, sim, mulher retada”. No entanto, quando ela diz “ACM se retou” [página 37], quer dizer ‘se aborreceu’. 

Na página 56, ela diz “Foi aí que me retei” [foi aí que me zanguei]; depois, “Foi a vez dele se retar” [foi a vez dele se zangar]. E há outras, muitas outras expressões que nós baianos usamos: comer água (beber), descarado (sem vergonha), cheio do pau (bêbado), graxeira (empregada doméstica), escambau (o diabo a quatro). O baianês de Quitéria também lembra de: misericórdia = interjeição de espanto ou alegria; tiragosto = petisco comido entre goles de bebida; enfezar = ficar com raiva; sua carniça = seu porra, seu sacana; presepeiro = que faz presepada; não comer reagge = não cair em conversa fiada. E mais: conversa mole = enrolação; esporro = repreensão; escroto = sacana; arrelia = pirraça; o couro comeu = a coisa pegou fogo; xereta = puxa-saco/bajulador; pela hora da morte = preço muito caro; encharcado = muito bêbado; de propósito = por deliberada vontade; titirrane = algo muito bom, porreta.

Enfim, enfim, um livro porreta, baianamente porreta.


* Marcelo Torres é baiano e mora em Brasília. É escritor, jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Contatos: marcelocronista@gmail.com 


Foto (no alto): Lalo Coutinho

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