sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

AS BAIANAS NO CORREIO*





O tabuleiro da baiana
Santas, piriguetes e noivas inspiram seis autores em livro de contos


Maria Clara Dultra 
vida@correio24horas.com.br


Estamos às vésperas do Carnaval e Sarita, uma loira sarada mais conhecida como a Piriguete de Ondina, já está mexendo seus pauzinhos para ganhar uma pulseira do camarote de Daniela Mercury - o mais badalado de Salvador. Este ano, parece que até Brad Pitt vai estar lá, e ela não quer perder a chance de ver o ídolo. Será que Sarita vai conseguir? Para saber, leia As Baianas (Casarão do Verbo / R$ 30/152 páginas), coletânea de contos que será lançada hoje, às 19h, na Livraria Cultura do Shopping Salvador. O texto de apresentação é do jornalista Xico Sá. Inspirados no livro As Cariocas, do escritor Sérgio Porto, os autores - Carlos Barbosa, Elieser Cesar, Gustavo Rios, Lima Trindade, Mayrant Gallo e Tom Correia - envolvem o leitor contando, cada uma seu modo, causos de seis baianas retadas: A Bonnie dos Barris, A Guerreira da Lapinha, A Santinha da Ribeira, A Putinha da Vitória, A Noivinha do Cabula e A Piriguete de Ondina. 


PIRIGUETE RICA "Quando falamos em piriguete, muita gente pensa em uma mulher da periferia", observa o escritor Lima Trindade, 46 anos, que deu vida à moça. Mas, então, o que dizer de Sarita Santos Giardini? Loira, turbinada - peito, bunda e nariz - ela é casada com Enzo Giardini, italiano rico que conheceu em uma barraca de praia em Patamares. E é amante do negão Téo Cintura Fina - um pagodeiro ricaço -, freqüenta cruzeiros para a Europa e é dona de uma coleção de roupas de grife. "É preciso fugir do senso comum. O conceito de piriguete pode ser aplicado a qualquer mulher, porque os valores morais estão mais sinuosos, e o conto trata de discutir isso", diz o autor. A intenção do livro parece ser mesmo a de desfazer mitos.


SEM ESTEREÓTIPOS Ao versar sobre a mulher baiana de hoje em dia, os autores se livram dos estereótipos historicamente a ela atribuídos - ou se valem deles com ironia. Esqueça, portanto, aquela nega do acarajé, filha de santo, subindo e descendo as ladeiras das ruas acidentadas da Cidade da Bahia, com seu tabuleiro na cabeça, olhar luminoso e sorriso largo. "Essa baiana oficial não está mais aí", avisa o jornalista e escritor Elieser César, 52 anos, idealizador da obra. "Quisemos contar as histórias de baianas de verdade -que riem, se divertem, mas também choram, sofrem, não são nem boas, nem más - e que, nesse sentido, exalam condição humana e inspiram um olhar reflexivo sobre a Salvador contemporânea", adianta Elieser. O tom com que o jornalista se debruça sobre essa Salvador atual no conto A Guerreira da Lapinha é humano e melancólico. Ao contar a história de uma baiana negra, pobre, vilipendiada pela vida, sofrida, mas guerreira, ele intuiu Maria Quitéria de Jesus, de Feira de Santana, nascida no século XVIII, heroína símbolo da Independência da Bahia. "Acredito que um bom título também rende uma boa história, e não só o contrário. Nesse caso, foi assim. Primeiro escolhi o título, depois fui desenvolvendo o enredo, explica Elieser. 


BAIANAS DA FICÇÃO Não muito longe do Largo da Lapinha, ali, nos Barris, a jovem de classe média Marina, que não é baiana, apenas veio passar o Verão na casa dos tios, se apropria do bairro para emular o comportamento de Bonnie, a famosa assaltante americana do começo do século 20. Na companhia de um Clyde baiano - ou simplesmente Léo, um moço sincero, mas apaixonado - ela comete delitos por Salvador. "Tentei fugir de um modelo de representação feminina, que ainda está muito pautado em Jorge Amado, e surgiu Bonnie, personagem da pura ficção, que só é baiana porque está na Bahia ", explica o escritor Mayrant Gallo, 50. O jornalista e escritor Carlos Barbosa, 54, que assina o conto A Putinha da Vitória, também retrata uma heroína ficcional e contemporânea. Betina, uma universitária de 20 anos, que mora com a mãe no bairro da Vitória, consegue, com mimo e sedução, exercer poder sobre um homem maduro. Na cama, gosta de ser chamada de "puta" e é prontamente atendida pelo seu amante, o jornalista Plínio Bonavides, quase vinte anos mais velho. "Não se trata de descaracterizar as baianas, apenas de não seguir um modelo estabelecido e de mostrar que, agora, elas estão fazendo história nos shoppings, nas praias, nas raves, transitando e construindo a Salvador de hoje", afirma Carlos Barbosa. Outra baiana contemporâneas dessas mocinhas é A Noivinha do Cabula. O conto narra que ela fica esperando por alguém em um ponto de ônibus, vestida de noiva. "Essa imagem sempre me pareceu poética", declara o autor da história, Gustavo Rios, 38. E, lá pras bandas da Ribeira, tem uma Santinha: Pituca. Uma Capitu baiana, imaginada pelo jornalista e escritor Tom Correia, 43. 

Um comentário:

Dulcíssima Prisão disse...

Às vezes me parece que quando a gente vai ficando velho deve deixar de ler autores novos: a memória e a capacidade de concentração já não são as mesmas — e os romances, poemas ou ensaios não calam tão fundo na alma de um sexagenário como na de um adolescente. Mesmo as canções têm considerável menor pregnância para um ancião do que para um menino. Bem, eu nem devia falar em menino: é óbvio o quanto as canções que aprendemos na infância atingem uma grandeza dentro de nós inalcançável pelas que ouvimos na maturidade. E tudo o mais. Fico fascinado pelo valor que certos seriados de TV têm para alguns amigos meus que estão, por exemplo, nos seus 40 anos. Mas, como sou um velhinho transviado, estranho igualmente a resistência que contemporâneos meus mostram a ler, ver e ouvir lançamentos. Por que ler um romance de Adam Thirlwell inteirinho só por causa de um conto de Antonia Pellegrino que meu filho achou num livro coletivo? Por que ver um clipe de Devendra em vez de me agarrar a Ella cantando Cole? Tudo isso só pode sobrecarregar meu HD. Melhor, então, fugir da falta de originalidade que impregna de naftalina a neo-literatura brasileira.