terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

AS BAIANAS NO CADERNO 2



     

Texto: Marcos Dias

O que é que a baiana tem? Tem vontade de ir no camarote de Daniela custe o que custar, tem. Tem desejo de matar, tem.  Tem hora que se cansa de humilhação, tem. Tem tara de ser chamada de puta, tem. Tem desejo de alimentar sua inquietude, tem. Tem memória de violência doméstica, tem. E muito mais. Dos balangandãs da baiana de Dorival Caymmi às baianas dos escritores Carlos Barbosa, Elieser Cesar, Gustavo Rios, Lima Trindade, Mayrant Gallo e Tom Correia — que  lançam o livro As Baianas sexta, às 19 horas, na Livraria Cultura — muito dendê foi fervido, a ponto de não haver traços da marqueteira baianidade nos  contos.

A ideia do projeto partiu do escritor e jornalista Elieser Cesar, que há três anos leu As Cariocas, de Sérgio Porto, e, tomado pelo escriptível da obra — o fato de poder ser continuadamente escrita pelo leitor —, acreditou que poderia, com outros escritores, oferecer um mosaico da mulher nascida na Bahia sem as imagens-feitas do imaginário brasileiro. Autor do conto A Guerreira da Lapinha, Cesar diz que os escritores convidados partiram de títulos criados por todos e, à maneira de Porto, as personagens foram vinculadas a um bairro, dando origem a narrativas como A Noivinha do Cabula (de Rios), A Putinha da Vitória (de Barbosa) ou A Bonnie dos Barris (Gallo).

Também foi um desafio, de acordo com o idealizador, os seis autores colocarem-se no papel de mulheres, mas garante não se tratar de um “clube do bolinha”, nem oportunismo em relação à série As Brasileiras (exibida atualmente na TV Globo), nem As Cariocas, de 2010, já que a ideia foi concebida antes. Leia mais.

Alma feminina | Não foi intenção de nenhum deles oferecer uma visão totalizadora da mulher baiana. Lima Trindade,  autor de  A Piriguete de Ondina, afirma que não pretendeu, com a sua loira Sarita, definir a alma feminina. E ser um homem escrevendo sobre mulheres dá a medida que as esferas do masculino e feminino não são estanques.

Para ele, o mais interessante do livro, para além das diferenças de estilo dos seis autores, diz respeito ao texto: “O grande barato é privilegiar a literatura, e não pretender chegar à essência  da mulher baiana”.Em seu conto, por exemplo, entre os axés e pagodes do Carnaval, há um personagem que só ouve música clássica. E longe dos enganosos maniqueísmos, uma piriguete da high-society acaba revelando o que “o baiano” também tem — daí o subtítulo exato do conto: A Piriguete de Ondina ou novelinha quase burlesca dos bons e maus costumes baianos.

O presidente da Academia Brasileira de Letras da Bahia, Aramis Costa, assina um posfácio em que destaca que “a surpresa de cada texto conduz o leitor à busca da surpresa seguinte”,  em textos feitos “com o talento de experimentados ficcionistas, que atordoam e conquistam o leitor”. O livro tem um ensaio fotográfico de Gal Meirelles e será vendido com duas capas. Para o editor Rosel Soares, da Casarão do Verbo, foi um dos títulos em que mais teve prazer em trabalhar. Pensa até em dar continuidade ao projeto, mapeando as identidades país afora. Já contratou inclusive três escritores do Rio Grande do Sul para escrever As Gaúchas. E não descarta a possibilidade de um volume com escritoras baianas falando sobre os baianos. Histórias não faltam.

| Serviço |

Lançamento do livro As Baianas 
Carlos Barbosa, Elieser Cesar, Gustavo Rios, Lima Trindade, Mayrant Gallo, Tom Correia
Local: Livraria Cultura (Salvador Shopping)
Data: sexta-feira, 10 às 19h

2 comentários:

editor disse...

É disso que gostamos no jornalismo: texto elegante, bem escrito!
rosel

Lidi disse...

Belo texto!