terça-feira, 31 de janeiro de 2012

QUANDO SIMENON VISITOU O LÍDER


George Simenon por David Levine

Da mesa do bar enxergava-se a rua. Fosse o céu menos chumbo e a tarde aplacaria as angústias dos passantes. Tudo se revestia com cores fugidias, pressa, desassossego. Itamar era o melhor garçom do estabelecimento. As garrafas desciam generosas em seus véus-de-noiva e encorpavam os copos com os sonhos, as ambições e os infortúnios da vida. O alarido abafaria o primeiro estampido? O grupo margeava a távola e os fantasmas de Dorothy Parker e Grouxo Marx nos rondavam como se estivéssemos no Algonquin. Tom olhou o grande e retangular espelho que estava à frente dele, destinado a iludir os clientes com a falsa noção de amplidão. Ele olhou e viu ali refletido uma senhora muito distinta. Vestia um chapéu de feltro com longas abas redondas. O vestido era recoberto por inúmeros colares de variadas pedras. Os braços ornamentados por dezenas de pulseiras. Os cabelos eram brancos e, apesar de denotar uma idade avançada, os olhos se apresentavam incrivelmente nus, despudorados. A velha passou por entre as mesas e ganhou as calçadas do Dois de Julho. Percebi o olhar intrigado de Tom e comentei, que figura! Sorrimos. Barbosa propôs um brinde. Eu, Tom, Elieser e Gustavo levantamos os copos. Muita sede tinha o Gallo, mas Itamar logo apareceu e igualou o nível de nosso ânimo. Brindamos os seis. [Nem pense em parar de ler aqui...]


Eu continuava a vigiar as calçadas e seus tipos singulares. Vez por outra soltava um chiste para o Tom, sentado ao meu lado. Era irônico torcer por um time de futebol chamado “Vitória” e que despencava pela tabela. Ele replicava com igual maldade. Por educação, fingíamos que escutávamos o acalorado debate sobre pin ups no cinema. Seria ela algo perto da senhora que abandonara o salão? Talvez uma ex-vedete, uma profissional do rebolado e amante do último coronel do cacau? Tom apostou numa ricaça decadente. Talvez viciada em apostas de turfe. Era possível, acedi. O fato, concordamos os dois, era que ela seria assassinada.

Antes que pensássemos se tiro de revólver ou veneno, um homem magro entrou na bar. Sentou-se ao balcão, pediu uma cerveja especial, pôs o chapéu no tampo, desamarrou o sobretudo, tirou um cachimbo do bolso e perguntou se era permitido fumar. Gustavo esticou o pescoço. Já estava com o cigarro engatilhado num dos dedos. Com a negativa, Simenon e Gustavo saíram para fumar. O brasileiro, perto de nós; o belga, num outro lugar qualquer.

Ninguém pronunciou uma palavra a respeito da visita inusitada. O ar no Líder tornou-se suave e adocicado. Cúmplices, levantamos os copos mais uma vez e saboreamos a cerveja. Itamar sempre solícito, não deixando o mar secar.




Tínhamos o autor e a vítima perfeitos, faltava apenas um acusado. Decidimos matar Laurinda. Sim, somente esse poderia ser o nome da rica velhinha. Ela seria enforcada com seu colar de pérolas. A motivação seria, evidentemente, não a grana, a herança, mas, tão somente, o acaso de Laurinda estar no momento errado no lugar errado. Após ser ameaçada por suas dívidas no turfe, a ex-vedete foi obrigada a vender um puro-sangue de seu haras. No dia em que efetuaria o pagamento, decidiu parar no Líder e beber uma taça de conhaque. Foi quando descobriu algo terrível. Mas, eu e Tom nos perguntamos, quem, aqui, poderia ter saído do bar e não atrair suspeitas? Quem?

Elencamos pessoa por pessoa, nome por nome e, então, num lampejo de lucidez, chegamos ao único capaz de perseguir e matar tão friamente uma pobre velhinha rica. O assassino era o nosso garçom. Afinal, ninguém poderia ser tão eficiente e simpático quanto o Itamar. (Lima Trindade)

Um comentário:

Lidi disse...

Coitado do Itamar, ele não faria isto. ;)